Durante a maior parte do século XX, o tempo de uma corrida foi uma decisão humana. Três cronometristas colocavam-se na meta, cada um com o seu relógio, e o registo final resultava de uma convenção: quando dois relógios coincidiam, era esse o tempo; quando divergiam, adotava-se o intermédio. O gesto do polegar sobre o botão introduzia sempre um atraso, e esse atraso variava com a atenção, a fadiga e a posição de quem cronometrava. O atletismo mediu-se ao décimo de segundo porque não tinha instrumentos para prometer mais do que isso com honestidade.
A primeira rutura veio da fotografia. A câmara de fenda não regista um instante, regista a linha de meta ao longo do tempo: a película desloca-se enquanto uma abertura estreitíssima deixa passar a luz, e o resultado é uma imagem em que o eixo horizontal já não é espaço, mas duração. Foi essa inversão que permitiu separar dois atletas cujos troncos cruzavam a meta com poucos centésimos de diferença. A partir daí, o desempate deixou de depender do que os juízes julgavam ter visto.
A segunda rutura foi elétrica. Ligar a pistola de partida ao relógio eliminou a variável humana do início da medição, e ligar a célula da meta ao mesmo circuito eliminou-a do fim. Nos Jogos Olímpicos da Cidade do México, em 1968, a cronometragem totalmente automática passou a valer como registo de referência, e não apenas como auxiliar de conferência. A pista transformou-se, nessa altura, num circuito fechado onde a única coisa manual era correr.
A consequência de arquivo chegou quase dez anos mais tarde. A partir de 1 de janeiro de 1977, a federação internacional deixou de homologar recordes nas distâncias curtas sem cronometragem totalmente automática. É uma data seca, quase administrativa, mas divide a história da modalidade em duas metades que não se sobrepõem: antes dela, um tempo manual podia ser mais generoso do que a realidade; depois dela, o número passou a ser o mesmo para toda a gente.
Falta o vento, que é o outro fator invisível dos arquivos. Nas provas até aos 200 metros e nos saltos horizontais, um vento de cauda superior a dois metros por segundo impede a homologação da marca, mesmo que o resultado conte para a classificação da prova. É por isso que um arquivo sério nunca alinha tempos sem indicar a coluna do anemómetro: sem ela, a comparação entre duas épocas é apenas uma impressão.
Reunidos, estes três elementos — fotografia de meta, circuito elétrico e limite de vento — explicam por que motivo esta redação insiste em datar tudo. Uma marca não é um número solto: é um número produzido por um conjunto de regras que mudou ao longo do tempo. Ler o arquivo com essas regras à vista é a diferença entre contar uma história e repetir uma lista.