Arenas · Leitura longa
História das arenas: como mudaram os recintos e os percursos
Um recinto desportivo é uma decisão técnica congelada em cimento. A forma da bancada, a medida da pista, o material do piso e a maneira como se entra e se sai dizem que modalidade o construiu e em que década isso aconteceu.
A palavra estádio nasceu de uma unidade de medida. Antes de designar um edifício, designava a distância de uma corrida, e o recinto era simplesmente o terreno onde essa distância cabia, delimitado por encostas naturais em que o público se sentava. Essa origem explica a forma alongada que sobreviveu a tudo o resto: quase três mil anos depois, um estádio de atletismo continua a ser um retângulo com duas pontas arredondadas, porque continua a ser desenhado à volta de uma corrida em linha reta e do seu regresso.
O primeiro grande salto de engenharia moderna aconteceu no fim do século XIX, quando o Estádio Panatenaico, em Atenas, foi reconstruído em mármore para receber os Jogos de 1896. Não foi uma inovação técnica no sentido estrito — a planta seguia a antiga — mas foi uma declaração de intenções: um recinto desportivo podia voltar a ser arquitetura pública de primeira linha, e não apenas um terreno vedado. A partir daí, quase todas as cidades europeias com ambição desportiva construíram o seu estádio, e muitos deles foram implantados em vales ou antigas pedreiras para aproveitar a inclinação natural do terreno, exatamente como na Antiguidade. O Estádio Nacional, no vale do Jamor, inaugurado em 1944, é um exemplo tardio e particularmente puro dessa lógica.
A revolução seguinte não foi de forma, foi de superfície. Durante décadas, correu-se sobre escória compactada — um piso feito de resíduos de carvão, peneirados e rolados, que absorvia água, endurecia ao sol e obrigava a repor material a cada época. Uma pista assim mudava de comportamento entre a manhã e a tarde, e os tempos registados nela dependiam tanto do piso como do atleta. A introdução dos pavimentos sintéticos, que chegaram aos Jogos Olímpicos em 1968, alterou tudo de uma vez: a superfície passou a ser homogénea, previsível e drenante, e as marcas passaram a poder comparar-se entre recintos diferentes. É por isso que o arquivo do atletismo trata os anos sessenta como uma fronteira.
O ciclismo seguiu um caminho paralelo e, em certos aspetos, inverso. Enquanto o atletismo padronizava o piso ao ar livre, o ciclismo de pista fechou-se: os velódromos passaram a ser cobertos, com anel de madeira e viragens muito inclinadas, para que a velocidade deixasse de depender do vento. A medida de duzentos e cinquenta metros que hoje é norma nas grandes competições resulta de um compromisso — é o comprimento a partir do qual o raio das curvas permite inclinações praticáveis sem obrigar o edifício a crescer demasiado. Ao mesmo tempo, a estrada manteve-se como o recinto menos construído de todo o desporto: um alcatrão qualquer, com uma inclinação difícil, transforma-se em arena durante algumas horas por ano e volta depois a ser estrada municipal.
Nas piscinas, a normalização foi ainda mais longe, porque a água amplifica qualquer diferença. Uma piscina de competição de percurso longo mede cinquenta metros, tem raias separadas por cordas concebidas para absorver ondulação e uma profundidade mínima definida por norma, precisamente para que a onda gerada por quem nada não regresse do fundo e perturbe a raia ao lado. A distinção entre percurso longo e percurso curto — as piscinas de vinte e cinco metros — mantém-se em arquivos separados por uma razão simples: o número de viragens muda o tempo final, e comparar as duas seria comparar duas modalidades.
Depois das grandes competições vem a pergunta mais difícil da arquitetura desportiva: o que fazer com o edifício. As respostas mais bem-sucedidas das últimas décadas passaram por planear a redução antes da construção. O London Aquatics Centre, concluído em 2011 segundo projeto de Zaha Hadid, foi desenhado com bancadas laterais temporárias que foram retiradas depois de 2012, deixando um recinto de dimensão utilizável no quotidiano. O Lee Valley VeloPark, construído para o mesmo ciclo, manteve o anel de duzentos e cinquenta metros e abriu ao público, com circuitos exteriores acrescentados à volta. Em ambos os casos, o legado não foi um monumento: foi um horário de utilização.
A acessibilidade é a camada mais recente e a que mais transformou o desenho interior. Lugares para cadeiras de rodas distribuídos por várias alturas da bancada em vez de concentrados numa fila, rampas com inclinação suave em vez de elevadores isolados, sinalética legível a distância, contraste cromático nos degraus, sistemas de som pensados para inteligibilidade e não para volume. São alterações que raramente aparecem em fotografia mas que decidem se uma pessoa pode ou não assistir a uma prova sem depender de outra. Um recinto construído há trinta anos e adaptado depois nota-se sempre: as soluções ficam encostadas às paredes, em vez de estarem integradas na estrutura.
Fica um último critério, que é o mais prático de todos e o mais esquecido pelos projetos: como se chega lá. Um recinto servido por comboio ou por metro tem um comportamento completamente diferente de um recinto acessível apenas de automóvel, e essa diferença aparece na composição do público, na duração da permanência antes e depois da prova e até no ruído da bancada. Quando visitamos uma arena para este guia, medimos sempre a distância entre a paragem de transporte público e a bilheteira mais próxima. É um número modesto, mas explica boa parte da vida de um edifício desportivo.