Formação · Leitura longa

Academias e formação: como se constrói a época de um atleta jovem

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Nas modalidades individuais, a formação é quase toda invisível: acontece em pistas municipais, piscinas de bairro e planos de água ao fim da tarde, longe de qualquer cobertura. É, ainda assim, a parte do desporto que decide tudo o resto.

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Silhuetas de duas pessoas a correr numa encosta contra um céu ao amanhecer.
A maior parte das carreiras desportivas começa sem qualquer intenção de carreira.

A palavra academia carrega hoje uma ambiguidade útil. Designa tanto a estrutura formal de um clube com escalões organizados, treinadores certificados e transporte próprio, como o professor de educação física que abre o portão do recinto escolar ao sábado de manhã. As duas coisas produzem atletas, e em Portugal, historicamente, a segunda produziu mais do que a primeira. Ignorar essa realidade é a forma mais rápida de escrever mal sobre formação.

A organização por escalões existe por uma razão biológica antes de ser desportiva. Crianças com a mesma idade cronológica podem estar separadas por dois ou três anos de maturação, e nas modalidades em que a força e a estatura pesam muito, isso distorce todos os resultados. Os escalões de formação — dos mais novos até aos juniores — servem sobretudo para limitar distâncias, cargas e número de provas, e para adiar decisões definitivas. Um jovem que se especializa cedo demais tende a atingir mais rápido o seu teto e a abandonar antes de descobrir a modalidade em que era realmente bom.

O calendário anual de formação segue, em traços gerais, uma forma parecida em quase toda a Europa. O outono é dedicado a construir base: volume moderado, muita variedade de estímulos, pouca competição. O inverno traz as provas em recinto fechado e as corridas em terreno natural, que funcionam como avaliação sem grande pressão. A primavera abre a época ao ar livre e é onde se ajusta a especialidade. O verão concentra as competições principais dos escalões, e o fim do verão é, tipicamente, uma pausa deliberada. Não há datas fixas neste texto de propósito: cada federação e cada região organizam-se de maneira diferente, e o que interessa é a forma da curva, não o dia.

A polivalência é o princípio que a investigação mais tem confirmado nas últimas décadas e que a prática mais custa a aceitar. Um jovem que nada, corre, salta, rema e joga desenvolve um repertório motor que depois transfere para a especialidade escolhida; um jovem que faz apenas uma coisa desde os oito anos desenvolve eficiência precoce e um padrão de sobrecarga repetida. Nas coletividades portuguesas mais antigas, a polivalência era estrutural: o mesmo clube tinha ginástica, atletismo e natação, e a criança passava por tudo antes de escolher. Muitas academias modernas estão a reconstruir deliberadamente esse percurso.

Pá de um remo a tocar a superfície da água num plano de água calmo entre encostas verdes.
O remo e a canoagem recrutam frequentemente jovens já crescidos, vindos de outras modalidades.

O treinador de formação faz um trabalho que se avalia mal. O seu produto não é a classificação do fim de semana, é a probabilidade de aquele jovem ainda estar a praticar desporto daqui a dez anos. Os indicadores que realmente importam nesta fase — taxa de continuidade, ausência de lesões por sobreuso, autonomia técnica, capacidade de treinar sozinho — não aparecem em nenhuma tabela pública. É por isso que os clubes com melhor formação são quase sempre aqueles em que o mesmo treinador acompanha um grupo durante vários anos, mesmo quando isso significa passar épocas inteiras sem qualquer destaque exterior.

O desporto feminino é a área em que a mudança foi mais rápida e menos documentada. Muitas provas femininas foram organizadas décadas antes de existirem registos sistemáticos, e boa parte da memória dessas competições está em arquivos de coletividades, em recortes de imprensa regional e na memória de quem participou. A consequência prática é que uma jovem que hoje procura referências na sua modalidade encontra, muitas vezes, um arquivo incompleto. Reconstruir essas linhagens é uma tarefa lenta, feita de confirmação cruzada, e é uma das razões pelas quais esta redação existe.

A transição de júnior para sénior continua a ser o ponto mais frágil de todo o percurso. É o momento em que os apoios escolares terminam, em que a exigência técnica sobe e em que a comparação deixa de ser feita com os pares da mesma idade. Muitos jovens que dominaram o seu escalão desaparecem nesta passagem, não por falta de capacidade, mas porque a estrutura à volta deles muda de um ano para o outro. As academias que gerem bem esta fase costumam ter uma característica comum: mantêm o atleta ligado ao grupo de origem enquanto ele se adapta ao novo contexto, em vez de o transferirem de uma só vez.

Para quem acompanha um jovem atleta de fora — pai, mãe, professor, dirigente — há um pequeno conjunto de perguntas que vale sempre a pena fazer ao clube: quantos treinadores acompanham o grupo, quantas provas estão previstas por época, como é organizada a pausa anual, e o que acontece a quem não é dos melhores. As respostas a estas quatro perguntas dizem mais sobre a qualidade de uma academia do que qualquer palmarés exibido à entrada.